quinta-feira, 31 de março de 2011

E no final do arco íris

Existia uma cidade perto das montanhas do sul, que sempre que chovia as pessoas colocavam suas roupas mais coloridas que tinham. Era uma tradição. Quando chovia por aqueles campos verdes deslumbrantes, todos tinham que trocar de roupa e usar suas roupas coloridas. Quando chovia de madrugada, pela manhã os mais idosos iam sentar na praça usando sempre calças de um roxo estonteante, as crianças usavam as mais belas combinações de cores, às vezes saíam com uma mistura de azul com rosa, ou até mesmo aqueles que aproveitavam do momento pra usufruir do patriotismo que existia dentro de si. As mulheres deslumbravam com seus vestidos vermelho berrante, amarelo canário, verde oliva e até mesmo algumas abusavam das cores usando vestidos floridos parecendo havaianos. Os homens, aqueles que não aceitavam muitas cores, usavam um marrom claro nas pernas e até mesmo uma camisa de cor forte. Ninguém ficava de fora, existia ate alguns animais de estimação da população que comia caviar na cidade, usavam trajes coloridos.
                Durante a época das chuvas, a cidade parecia cada vez mais colorida, muitas pessoas se interessavam pela tradição e mudavam para o pequeno lugar. Com o tempo as crianças foram desenvolvendo suas próprias maneiras de se vestir, a cada ano era um tipo de roupa, até onde soube na ultima estação os meninos estavam usando um short curto azul e as meninas uma linda saia amarela. Já os adolescentes, os menos revoltados usavam um azul básico, os mais revoltados usavam cinza.
                Apenas uma vez um garoto resolveu contradizer o que já estava imposto desde há muito tempo. Foi numa manha cinzenta, havia chovido durante a noite inteira, todos saíram de suas casas mais estonteantes do que nunca, pois na noite passada houve final de campeonato estadual e o time vencedor possuía muitos torcedores na cidade. Voltando ao garoto, ele morava no centro da cidade, precisava apenas atravessar a praça principal para ir à escola de manhã. Quando ele saiu de casa, todos o olharam, assustaram e fecharam a cara.
                Ele estava usando uma calça jeans, uma camisa preta e um tênis de azul escuro. No primeiro momento pensou duas vezes em ir à escola. Nas duas chegou a conclusão de que deveria usar o que quisesse. Uma senhora o barrou e o chamou de idiota. Um senhor de mais ou menos sessenta anos o parou e disse para trocar de roupa, o garoto disse que não iria mudar, o senhor continuou insistindo. Ele saiu da multidão que ia cercando-o. Agora muitos apenas não olhavam mas o empurravam com força como se fosse uma aberração. Ele começou a correr e desviar dos objetos que iam em direção a ele.
                Chegou ao portão da escola e a maioria dos alunos não queriam deixa-lo entrar, o pior foi quando a diretora apareceu e apenas pronunciou as seguintes palavras:
                -Ninguém usando preto nos dias da alegria está permitido entrar neste local, não queremos pessoas que descartam as tradições e trazem a morbidade para essa escola.
                Pra variar, todos vaiaram e mais uma onda de objetos variados foram em direção ao menino, que correu para bem longe dali. Correu tanto, seus olhos cheios d’água, o impediam de ver pra onde corria, apenas ouvia os gritos atrás.
                Foi correndo pelas plantações de milho, ouvia cachorros o seguindo, até mesmo os cães o odiavam agora. Corria sem parar, o choro secando em seu rosto e os gritos em sua cabeça, estava agora correndo por um vasto campo, até que sentiu seu pé no ar e indo em direção ao chão, só que o chão não chegou ao esperado. Sentiu seu rosto encostar-se à agua e depois todo o seu corpo. Afundou, acalmou na agua gelada... Até que sentiu falta de respirar, subiu a superfície, foi até a margem e percebeu que havia uma garota sentada olhando para ele assustada. Ela o encarava com os olhos mais lindos que ele já vira, eram de um tom verde com marrom de uma forma impressionante. Ele saiu da agua e sentou. Os dois ficaram no silencio. Até que ele resolveu quebrar o gelo.
                -Não é minha culpa, eu só não queria seguir a tradição.-Uma lágrima formou em seu olho esquerdo. Lembrou que o rosto estava molhado e não se importou.
                -Que tradição?
                Ele não acreditou no que ela disse, apenas sorriu e contemplou o lindo rosto que o encarava. O que ele fez? Aproveitou o momento.