quarta-feira, 20 de julho de 2011

José de Castro Lima


Foi exatamente há uma semana, eu indo dormir sem ter noção que na madrugada que estava por vir eu iria acordar com um grito de dor que nunca irei esquecer. Vi nos olhos a dor da perda, não consegui sentir nada, tentava sair lágrimas, mas o choque foi grande que me fez ficar paralisado por vários minutos. Então fui ver a pessoa que eu mais preocupo nessa vida, é como se fosse uma profissão, mesmo você escondendo, ainda se preocupa com a pessoa. E muito. Passei pela porta e ele estava acordado imóvel na cama. Fui até lá e sentei do seu lado, perguntei se ele já sabia. Ele balançou a cabeça. Durante esse segundo eu fiz uma oração, pedi a Deus que me desse força e soubesse como dizer.

Então eu disse. Minhas lágrimas se juntaram as dele. Temos uma ferida em comum, e mesmo você dizendo que não, eu ainda acho que foi por minha culpa. Eu vi novamente a dor nos seus olhos vermelhos, na cabeça baixa e no choro calado.
O dia passou e a dor vinha e volta. Não é fácil, eu nunca havia sentido algo tão doloroso como isso. Foram dezoito anos com meu avô, e posso dizer, foram bem aproveitados. Olhando seu sorriso e mesmo que muitas vezes ele estava cansado, ele estava lá, pronto para qualquer coisa, para ajudar qualquer um que pedisse. Desde criança eu já estava acostumado a vê-lo sorrindo e conversando com seus amigos e familiares.

Aprendi muito durante esse pequeno tempo. Aprendi como funciona um motor de uma ‘piladeira’ de arroz, a como que fazem os asfaltos, a pesar nas balanças antigas, a descascar uma laranja, e tantas coisas que seria difícil lista-las. Lembro-me de andar no fusca com ele dirigindo e me levando para vários lugares junto com meus primos. Dos kinder ovos que ele fazia questão de dar para todos (naquela época era barato), no natal ganhava dinheiro dele, mesmo eu não aceitando algumas vezes que eu já percebia que a vida não era fácil, ele fazia questão. O dinheiro tão suado era bem vindo. Se eu soubesse guardava tudo que ele me deu, daria um quarto cheio de coisas e lembranças. Se eu pudesse gravava todos os momentos para assistir a  tudo de novo. Gravava as vezes que ele me xingava de sua maneira educada sem querer me ferir. E ficou tudo na lembrança. Seu sorriso, suas lágrimas que quando eu fui morar fora, um dia antes da partida, eu a noite estava em sua casa e ele me abraçou dizendo pra tomar cuidado e não sumir.

“Não vô Zé, nunca vou sumir.”

E agora fica a lembrança. Fico grato por ter tido uma pessoa com esse caráter por perto. Sempre em disposição para ajudar qualquer um. Agradeço a Deus pela força que tem dado a minha família e a todas as pessoas que tem ficado ao meu lado, e peço mais força para superar essa dor da perda que insiste em assolar nossos corações e acredito que um dia veremos suas fotos e seus pertences sem lágrimas de tristeza nos  olhos, mas sim de alegria e gratidão.
E nunca, nunca nessa vida, vai haver um Michael tão orgulhoso de ter puxado suas orelhas vô. Saiba que sempre te amei, e sempre vou te amar.
De seu neto.
Michael Castro.