domingo, 18 de março de 2012

Devil's Work



Ele estava correndo sem parar por uma rua deserta de uma cidade que mal conhecia, seus olhos embaçavam com o vento. Queria correr mais rápido, mas as pernas não deixavam. Queria alcançar algum lugar importante, porém não sabia para onde estava indo. Só queria correr,fugir ,estar em outro lugar. Usava uma roupa surrada, uma camisa antiga, que usava para trabalhar, uma calça de pano fino social e estava descalço, o mais importante detalhe.
Descalço, com seus pés nus, sentindo as pedras cortarem a pele fina mal acostumada com um chão tão áspero. O suor descia dos cabelos negros finos, a testa franzia, a boca parecia um deserto. Parou, puxou o ar para os pulmões sujos de nicotina, colocou as mãos nos joelhos e olhou para os lados. Havia casas antigas e outras novas, algumas mulheres nas janelas olhando-o, crianças brincando de bola. Só que sentiu os olhos o perseguindo, como se fossem o agarrá-lo. Sentiu pavor, tentou gritar mas só conseguiu correr.
Chegou a outro lugar e quando percebeu ali não havia cor alguma, nem mesmo suas mãos, tudo era preto e branco. Foi andando mais, apressou o passo e viu que ali perto havia uma grande fábrica. Por um grande portão homens e mulheres saíam sujos de lá, crianças corriam por ali perto e sumiam no meio da fumaça fétida preta, seus ouvidos se encheram de gritos, lamentações e choros de crianças. Correu para bem longe de toda aquela confusão, fechou os olhos.
Sentiu um cheiro de molho de tomate, abriu os olhos, ainda estava correndo. Assustou-se com tantas cores ao seu redor, uma mistura de vermelho, amarelo, verde, por todos os lados. Era uma rua sem calçamento, sentiu a poeira amarela se misturar com a pele. Parou. Eram casas pequenas, com uma janela e uma porta na frente. Ouvia uma música distante, estava se sentindo melhor. O cheiro de molho ainda permanecia, as pessoas passavam por ele e o cumprimentavam cordialmente. Foi continuando seu caminho. Fez uma curva.
Entrou em um restaurante, precisava saber onde estava, mas também queria saber de onde vinha o tal cheiro de molho. Uma mulher um pouco mais baixa do que ele o atendeu,  ambos os olhos se encontraram, os dele se deliciaram nos verdes dela e ela se afundou nas negras íris dele. Depois ele percebeu que seus cabelos eram lisos avermelhados, o sol iluminava forte, parecendo uma chama intensa, a qual ele queria tocar.
Ele tentou falar e ela queria ouvir. Ele abriu a boca, mas não conseguiu pronunciar som algum, ela fazia perguntas. Ele disse que ela era muito bonita, ela não sorriu. Ele comentou sobre os cabelos lisos avermelhados e a comparação com as chamas, isso a fez sorrir. Conseguiu ver os dentes, havia um torto que ele não reparou, pois os lábios estavam em uma sintonia mais perfeita o possível, o vermelho de novo o levou para o encanto.
Ia perguntar o nome só que ela o atropelou:
-Já são mais de cinco horas da tarde! Hora de ir para casa!
Ele abriu os olhos, estava sentado de frente para um computador, na sua frente havia mulher baixinha de cabelos castanhos o cutucando dizendo que já estava na hora de ir. Ele agradeceu e abaixou os olhos, tentou se lembrar de tudo que tinha acontecido antes, foi lembrando, querendo saber como tinha chegado aos lugares e principalmente quando começou a correr. Porém não conseguiu, só lembrou de todo o caminho, e por fim conseguiu lembrar-se da ruiva. Sorriu. Fechou os punhos com raiva por ela estar apenas em sua cabeça.
Saiu do trabalho, estava na rua, sentiu um frio por baixo, abaixou a cabeça e viu que seus pés se encontravam com o chão sem sapatos. Ficou atordoado, levantou a cabeça e sentiu um cheiro de molho de tomate. Olhou para os lados.
 Se assustou com as cores novamente.