terça-feira, 14 de agosto de 2012

A louca varrida e eu


Ela correu o máximo que podia, pisou no cascalho com os pés descalços e o vestido arrastando na poeira. Correu o máximo que podia, pra chegar lá e não ter o merecido. Sempre assim, disse uma senhora de idade quando me contava o caso. A cidade inteira sabia, que calúnia, a família era tão boa, sempre pagava o mercado. Agora esse fato. “Uma laranja podre toda família tem.” É o que o vizinho disse. Procurei a mulher por toda cidade e nada.
O que eu sabia era que ela fugiu do casamento, dizendo que percebeu a velocidade do trem. A cidade inteira comenta dela até hoje, fazendo cinco anos hoje o ocorrido. Mas lá estava eu no meio de tantas perguntas e fofocas. Mas primeiro, vamos ao o porquê de eu estar lá, no meio de tanto boato. Nunca tinha ouvido falar na cidade e muito menos na garota. Foi em um domingo na hora do almoço que minha amiga me ligou, dizendo que eu deveria sair de casa e aproveitar o dia. Desliguei na hora. Filosofia barata eu ganho no Tumblr ou no Facebook. Ela retornou mais tarde, e dessa vez me disse pra procurar tal garota da sua cidade que se parecia muito comigo.
 Perguntei se era pela aparência e se eu iria ganhar um dinheiro com isso levando ela junto comigo para um programa de auditório, mas ela disse que isso nunca iria acontecer. Não insisti em saber o motivo, mas acho que é pela minha cara horrenda não ser aceita na TV. Minha amiga me deu uma passagem de ida para a pequena cidade, não era muito cara por sinal. Porém ela insistiu e eu fui.
Cheguei lá e fui ao mercado principal. Duas senhoras e um menino cabeludo me contaram toda história. Fui atrás da família e eles se mudaram, porém me informaram que a tal mulher ainda vivia por ali, escondida em algum lugar. Passei duas noites na cidade, aproveitei férias do trabalho e lá fiquei. No último dia fui até um vilarejo ali perto e pela boca de uma menina muito sabichona (tive que pagar um refri a ela) a tal mulher morava em uma casa abandonada e que ela tinha tudo antes do casamento, e teria se tivesse concluído o casório. A menina foi até um ponto na estrada comigo, “moço pode seguir o caminho, não vou porque ela é louca, fica escrevendo nas paredes e fica rodando igual pião.”
Cheguei ao portão, a frente tinha realmente uma casa abandonada, escondida entre arvores e vários pedregulhos, eu nunca moraria ali, imaginei na hora a quantidade de insetos. Chamei, e já fui entrando, dei de cara com ela na janela, o vidro estava quebrado. Ela assustou e eu dei um pulo. Clássico.
Mas se eu pudesse descrever a mulher, eu diria que ela tinha os olhos mais sombrios que eu já tinha visto em toda minha vida, nunca vou ver algo tão arrepiante, mas o resto era bonito, o corpo, o cabelo, e sorriso. Ela me convidou para entrar, ficamos conversando, até que ouvimos um barulho de moto. Ela sorriu trêmula e pediu que eu me escondesse no guarda-roupa velho que ali tinha. A casa estava toda destruída, paredes quebradas, mas tinha um guarda-roupa. Fiquei ali quieto, fiz o que ela queria porque meu medo crescia a cada instante. Ela foi ver quem tinha chegado, escutei voz de homem. Ele gritava. Ela chorava baixinho. Os dois entraram.
Por um buraco no móvel eu consegui ver quem era. O noivo, mais gordo que nas fotos e mais barbudo. Ele a sacudia pelos braços, eu tentei sair, mas ele puxou uma arma da calça. Se Deus me escutou naquele momento, ele ouviu todas as rezas em poucos segundos. Ele apontou a arma pra ela e disse que sua vida tinha acabado. Ela disse que não podia, admitiu a culpa, mas não podia ter casado. Disse que a vida era mais do que isso, mais do que ter um amor, mais do que esperar o homem certo, mais do que se reservar, mais do que ficar louca depois que descobrir o sentido da vida. A última coisa que ela disse para ele foi em vão, ouvi o disparo e a vi cair no chão sujo. Ele saiu dali correndo, escutei a moto se afastando. Saí o mais rápido o possível, cheguei à delegacia, me meti em uma encrenca, sendo um suspeito, vi meus pais chorando, afinal o que eu, um cara estranho foi fazer ali. Logo depois o noivo admitiu a culpa, saí da delegacia aliviado, fui para a casa dos meus pais e comi a maior quantidade de pães de queijo da minha avó. A massa é boa, recomendo.
Mas ainda hoje penso na pobre mulher, para ela, eu fui a última pessoa e a única (eu acredito) que a entendeu. Por alguns minutos nos sentimos próximos, mesmo que ela falava rápido eu consegui entender o seu desespero, a sua angústia, o seu abandono, sua solidão, sua vontade de correr mais rápido possível de tudo. A última coisa que ela disse foi em vão para o noivo, mas para mim, foi mais do que uma frase, foi algo libertador, ela apenas disse que a velocidade é incalculável, mas o trem um dia para, ou se acidenta.