terça-feira, 1 de maio de 2012

Uma ruiva


A jovem deitou na grama verde em frente a casa dos avós, não se importou de sujar o vestido que a mãe mandou fazer para cerimônia do dia. Ficou olhando para o céu, queria pegar seu mp4, porém deixou em casa, há muitos quilômetros dali. O dia estava escuro, não havia sol, ela pensou em todos os deveres da faculdade e esqueceu quando um par de sapatos apareceu do lado de seu rosto.
Um homem aparentando ter 40 anos abaixou-se e olhou para os olhos cor de mel da moça. Ela ficou sem graça ao ver os olhos verdes do homem a encarando. Abaixou a cabeça deixando os cabelos ruivos tamparem o rosto branco como uma folha de papel. O homem sentou ao seu lado e acendeu um cigarro.
Ele usava um colete de lã vermelho por cima de uma camisa social azul clara, usava uma calça bege e os sapatos pretos. A fumaça do cigarro foi ao seu nariz e a fez espirrar, ele apagou na grama e pediu desculpas. Ouviam-se as vozes de dentro da casa, a comemoração de bodas de ouro dos avós dela começara. Ele pegou em seu braço e ela o encarou. Por um momento ela sentiu, dentro dos olhos do homem, que não deveria sentir vergonha de nada, aquele era o momento de mostrar que era uma mulher enfrentando as consequências de suas atitudes.
-Não precisamos voltar lá dentro se quiser. - Disse calmamente o homem ajeitando a coluna e fazendo uma cara de dor. Ela riu.


Os dois levantaram, ficaram um de frente para o outro. No fundo, o homem queria que tudo acabasse entre os dois, talvez ela não fosse para ele, os dois não combinava muito, a família dela não ficou feliz com o relacionamento e ela gostava de Nirvana. Não que ele não gostasse da banda, havia passado pela época do grunge dos anos 90, porém odiava, sim ele odiava, o culto que todos tinham com Kurt Cobain. Mas no fim ela era uma boa namorada.
Os dois se conheceram em uma lanchonete na faculdade em que ela cursava e ele ensinava algumas matérias na área de humanas. Ela era estudante de nutrição. Ele tomava seu café diário e percebeu que ela sempre aparecia todas as quintas.  Com o tempo, duas semanas ou menos, ele percebeu que os olhares eram recíprocos. Certo dia pensou em puxar assunto, mas não sabia por onde começar mas ela foi primeiro.
-Você toma café com o estômago vazio?- Ele só conseguiu pensar: “Espera, porque ela está falando comigo? Porquê quer saber do meu estômago?”

Era uma pesquisa, mas posteriormente ela disse que queria ter conversado com o moço simpático desde o dia que ele entornou café nas calças, ele não lembrava deste momento.
E foi assim. Trocaram telefones e em um mês já dividiam as pizzas dos domingos. Agora estavam ali, cada um pensando no que fazer depois do que passaram na cerimônia da família dela. Ela pegou nas mãos do homem, viu a marca da aliança, mais um motivo. Abraçou-o.
Sentiu a barba roçar seu rosto, acariciou os cabelos macios, apertou mais ainda o abraço. Era único aquele momento, se separaram e os olhos se encararam. Ele pronunciou as seguintes palavras:
-Você me fez sentir jovem.
-Eu acho você jovem.
Os lábios se tocaram em um ritmo frenético, os corpos não conseguiam se afastar, os dois perceberam. Não ligaram para a festa que acontecia dentro da casa e muito menos para alguns familiares vendo o beijo apaixonado dos dois, apenas deram a mão e saíram dali, mas quando saíram da casa deram de cara com uma rua cinzenta. Ela soltou a mão e abaixou a cabeça.  Olhou para dentro da casa e suspirou. Ele entendeu, deu um beijo e a abraçou. Ela abaixou o olhar, sempre foi assim, não gostava de se sentir presa.

Entrou dentro da casa e sorriu ao ver a tia solteira de 45 anos bêbada falando que homem algum não presta. Apesar da semelhança com a tia, ela ainda era ruiva e com o corpo em forma. Pegou uma taça de vinho e ergueu em nome dos avós.