quinta-feira, 30 de julho de 2015

PM é chamada para controlar discussão na Carlos Bezerra

Por Spot Fetcher

Foi um susto e tanto para os moradores da Av. Carlos Bezerra. Na noite passada, dois cachorros grandes discutiram aos gritos (e latidos) e não deixou ninguém dormir por duas horas seguidas. A Polícia Militar foi chamada ao local para acalmar os dois animais. Testemunhas afirmaram que a discussão iniciou por volta das duas horas da manhã e segundo um poodle, morador de um prédio na avenida que não quis se identificar, foi por uma disputa de território.

Os dois cachorros, sem raças identificadas, foram detidos e se encontram presos por atrapalharem a ordem do lugar. O advogado de um dos cães alegou que seu cliente “não ingeriu nenhum remédio diferente nos últimos dias e muito menos andou trocando a ração.”. O Delegado Foster afirmou que no último mês foram mais de dez discussões como essa em diversos pontos da cidade e que não é apenas uma série aleatória de acasos.

O motivo não se sabe ao certo, apenas boatos e nada confirmado. A Prefeita Laika, afirmou que um instituto realizou uma pesquisa no Centro de Tratamento de Água da cidade na última semana e que o resultado sairá em breve.

O psico-veterinário Hachiko, da Universidade de Greyfrians Bobby,  afirmou que o caso é extremamente importante, que em tempos como estes a maioria pretende resolver os problemas na base do latido e mordida. Que os casos em todo o território nacional vão além de brigas físicas e já se passam em ambiente online. “Os animais tendem a brigar por comida ou território, mas o nosso conceito de prioridade têm modificado com os anos, hoje brigamos por pontos de vistas.”. 

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Y

Iamamiwhoami 
Bounty (2013)

Por um longo tempo eu achei que eu seria uma pessoa extraordinária, principalmente depois que chegasse aos quarenta anos. Pois bem, eis eu aqui esperando a hora dos meus filhos voltarem do inglês, enquanto minha esposa termina de consertar a torneira da pia. Eu acho que chegamos a um ponto em que milhões de coisas para consertar na casa tornaram-se comuns, “apagar fogueiras” é o que ela gosta de dizer.

Significa que você não termina um projeto direito, e no final das contas, se percebe fechando as pontas curtas dos outros que você nunca finalizou. A pia, por exemplo, sempre pingou, mas deixei pra lá, primeira vez que percebi foi em um jantar com a minha sogra. Evitei o estresse. Mesmo que naquele dia eu tenha ganhado cinco fios de cabelo branco a cada vez que fui chamado de imprestável.

Você deve me achar com uma cara de tarrancudo, que fica em um escritório o dia inteiro, e no final do dia desconta em um programa barato ou no futebol das quartas-feiras. Nem um e muito menos o outro. Talvez eu seja um pouco tarrancudo, minha pequena diz que vou ficar velho muito cedo se eu não começar a sorrir logo.

Eu tenho uma pequena sensação de que fui um dos jovens da geração y, ou x, ou z, não lembro qual termo deram para minha geração. Sei que tínhamos liberdade para escolhas. Eu fiz as minhas. Mas acho que no final se eu tivesse escolhido um outro caminho, talvez se não tivesse aceitado aquela promoção e tentasse o meu próprio negócio...Não penso muito, sabe, apenas em alguns momentos eu imagino o que teria sido de minha vida.

Por volta de 2018, com a nova instituição do Estado Único, que abriu todas as fronteiras e diminuiu o que chamávamos de mundo, as coisas mudaram muito. Talvez você não se lembre, mas antes, era possível identificar as culturas, brigávamos inclusive, eu discutia em fóruns online sobre apropriação cultural, desrespeito a culturas e muitos termos. Hoje, não se vê nada disso.

Confesso que as viagens ficaram mais fáceis para alguns. Lúcia minha empregada, por exemplo, viajou apenas uma vez na vida, antes não se imaginava nada disso. Meus filhos e eu viajamos quatro vezes ao ano. Exterior, lógico. Não existem mais países com os nomes, apenas o Estado Único. 

Constituído pelas antigas nações.  Existem os antigos continentes, que compartilham seus produtos e ninguém ganha ou perde.  Pelo menos é o que insistem em dizer na NeTV. 


quinta-feira, 23 de abril de 2015

Diet Mountain Dew

Lana del Rey
Born to Die (2012)

O barulho de copos e pratos não a incomodava, muito menos a falta de luz, as latas de molho de tomate caídas em seus pés e o calor de estarem em uma pequena despensa perto da cozinha. Só queria estar ali, no intenso prazer de estar fazendo algo que julgava errado. 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Blue Jeans

Lana Del Rey
Born to Die (2012)

- Eu sempre imaginei que ela um dia iria me ligar, sabe, aqueles clichês de filme de romance. Mas nunca ligou, só a polícia. Meu número era o único que ela tinha no celular.
Apertou o joelho esquerdo com a mão, ficou olhando para o carpete da sala da terapeuta. Ela com a cabeça imóvel, tombada um pouco para a direita, uma expressão tão característica da profissão que ele não tinha percebido nas outras sessões que:

Ela sempre fazia a mesma cara.
Dependendo do assunto, a cabeça ficava em uma situação de quase noventa graus com o pescoço.

Desde o dia em que recebera a ligação, o coração não parava de palpitar. A semana fria após o acontecimento, o reencontro com os familiares e todas as perguntas que não paravam de surgir, o sufocou. Sem ar, sem algum lugar sequer onde os olhos e ouvidos  o perseguiam, ele teve uma crise de pânico.
- Hoje faz um mês. Desde a ligação.
As palavras ecoavam pela sala. Teria sido uma boa ideia ter procurado ajuda? Certamente não, precisava contar sobre o que acontecera com sua noiva. Mesmo que ela tinha sumido por dois meses e meio, e quando soube de notícias, foi de um acidente com um chevette amarelo.
- Eu já estava pensando em desistir de procura-la. Débora nunca foi uma pessoa fácil, e eu realmente não estava entendendo o que ela estava passando. E acho que nunca vou entender.
Foi uma quarta-feira, daquelas onde o sol deixa as cabeças quentes e o bom humor de alguns irrita outros. Ele estava trabalhando, tinha sido um dia comum, a mulher do RH comentou no café que haveria um aumento, o seu computador tinha parado de travar. E assim seu telefone tocou. E soube de Débora, em um acidente em uma rodovia, um chevette destruído e um homem que ele já conhecia.
- Eles não se conheciam. Mas foi apenas um encontro e ele tomou a sua cabeça. Ele tinha um poder sobre ela, sabe? Eu nunca a tinha visto daquele jeito, foi no último dia em que ela estava lá em casa. Eu vi no olhar dela que, sabe quando a pessoa não está ali? Se eu fosse cristão diria que ela estava com o demônio no corpo.
Seus cabelos ruivos tinham saído da casa decididos em não voltar, porém o noivo não sabia disso. Achava que era só uma briga de casal, até ela não voltar no dia seguinte e a família não saber mais da localização de Débora.
- Os policiais encontraram no celular alguns vídeos que os dois gravaram. Nada demais. Não parecia um casal de apaixonados, sabe? Eram mais brigas.
Vídeos que nunca saíram de sua cabeça. Será que Débora o deixara de amar? Se o noivado estava ruim, por que preferiu sair com um cara que mal conhecia? As vezes conseguia esquecer de todas as perguntas e só desejar para que ela soubesse que ele a amaria para sempre.
- Ele a chamava de Bu


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

carta 3.


    Planeta R*, 7 meses e 10 dias como habitante.
Caro amigo,
Lembro-me de ter escrito a primeira carta há mais ou menos três anos, desde minha saída da Terra. Passei por alguns lugares e lembro do primeiro planeta que habitei. Depois viajei pelo espaço e lembro ainda de ter recebido notícias do pão de mel de sua mãe, que Deus a tenha, torço para que essa tempestade em sua família passe logo. Foram anos de viagens e experiências né meu amigo, você aí e eu aqui.
Eu reencontrei o primeiro planeta, dessa vez foi ao acaso, como na última vez, mas quando percebi, era mais que uma aterrissagem rápida. Era uma noite quente como as de fevereiro aí na Terra, durou pouco tempo para eu perceber que: planetas mudam. Nessa noite eu vi alguns lugares que sempre me deixaram fascinados, o mar azul acidentado (mesmo a noite ele é fantástico) por exemplo, e vi outras mudanças. Mudanças aconteceram desde minha última saída, por isso o nomeei como R*.
Quando saí eu jurava para mim mesmo que encontraria algum planeta que me fizesse bem como esse, você sabe, difícil encontrar um lugar para habitar no universo. Quando me vi, estava já olhando um lugar para deixar minha nave, pontos interessantes para passar as noites frias e até mesmo já comecei a planejar a construção de uma casa. Nada muito grande, apenas que tenha o mesmo conforto que o planeta inteiro proporciona.
Bom meu amigo,como eu disse, planetas mudam, mas ainda assim mantém aquilo dentro que faz a gente se apaixonar por eles, ou nunca deixar de se apaixonar. Quando puder, saia da Terra e viaje por aí, faz bem. Tenho certeza que seu planeta pode estar perto.


Michael Maia
Antigo explorador. 

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Speed the Collapse

Metric em 
Synthetica (2012)

Sentou na cadeira de madeira na sala cinzenta na madrugada fria de julho, em sua frente havia um homem barrigudo e atrás uma mesa pequena com um jovem digitando em um computador. Era um cômodo médio, cabiam poucas coisas, a mesa, o barrigudo, ela (com seus cabelos longos loiros), e o jovem sentado. Não tinha reparado quando entrou, mas só existia uma porta e nenhuma janela.
- A senhora conhecia a vítima há quanto tempo?
Respirou fundo, lembrou do menino esquisito do jardim de infância e começou:
- Nós saímos algumas vezes – outra mulher, aparentemente mais velha e bem vestida – Na verdade acho que foram só duas, ou três. Ele era muito novo para alguém como eu, o senhor sabe quando bate a crise de idade? Eu precisava de alguém mais novo...
- Quanto tempo senhora Blanc? –indagou o barrigudo coçando a barba do pescoço.
- Dois meses. Comprei uma de suas artes, em uma exposição, eu acho que nos conhecemos assim.
- O senhor tem absoluta certeza que ninguém vai saber? – desta vez é um homem, de cabelos negros, pele branca, olhos castanhos e alto, com 40 e poucos anos, perguntava com o olhar assustado.
- Depende, se o senhor tiver alguma culpa no crime...
- Nós meio que... namorávamos...
- Há quanto tempo vocês se conheciam?
- Muito tempo, eu acho. Ele era jovem né? Não sei se ele pensa, pensava, assim, mas  foram três longos anos, veio meu divórcio, o livro dele, foi conturbado...Mas acho que para ele não deve ter sido nada, me ligava pouco, eu que corria atrás...Você sabe, ele é, era, jovem...Acho que pensava que era imortal, ou alguma coisa parecida. – tremia e tentava colocar os dedos na mesa fria a sua frente.
- Não, eu não conheci o senhor Orvieto. – a primeira garota, dos cabelos longos loiros – Se pegaram algumas vezes, um affair, você sabe, ele era perdidamente apaixonado pelo Lucas.
- Como você sabe? Disse que nunca o conheceu? – desta vez ele bebia uma caneca de café, era outro dia e o humor não melhorara.
- Lucas era meu melhor amigo, me acompanhou desde o início da carreira, foi em todos os meus primeiros ensaios fotográficos para me apoiar. Ele uma vez mencionou que o Sr. Orvieto não parava de ligar para ele, e mandar cartões. Era um chato. Posso fumar aqui dentro?
- Ah sim, a melhor amiga atriz pornô, eu a conheci em uma festa, claro, sempre as festas do Lucas Bosner. Eram famosas na Paulista, sabe? Todo mundo comentava disso. Ela chegou a atender um dos telefonemas, eu ficava preocupado com a carreira dele.
- Ele era um chato que não desgrudava. Certo dia ele ligou para o Lu em plena sexta-feira às oito da noite, estávamos na casa da Chay começando a nossa noite, peguei o telefone da mão dele e disse...
- Ela foi grossa, disse palavrões. Não liguei nunca mais, deu para escutar as risadas do Lucas bem no fundo.
- Claro que foi ele, pensa bem o que um homem em sua crise de idade pode fazer?
- Você tem ideia de quantas pessoas o Sr.Lucas Bosner namorou nos últimos quatro meses?
- Bom, ele não era uma pessoa muito presa não é? Pelo que eu fiquei sabendo foram sete pessoas diferentes, ele era muito jovem...Acho que todos são assim hoje em dia...
- Um amante da vida, queria experimentar todas as sensações que permitiam, eu não sei o número, mas o Lu era um doce de pessoa, era impossível não se apaixonar pelo seu jeito, sorriso, cabelo e sua arte incrível.
- Onde você estava no dia do assassinato?
- Com a minha ex-mulher, tivemos um jantar com nossos filhos, havia uma semana que eu não via o Lucas.
- Fui eu que matei o Lucas. 

terça-feira, 9 de julho de 2013

Born to Die

Lana Del Rey
Born to Die (2012)

Estava ela do lado esquerdo, naquele chevette amarelo, com os pés no painel, olhando para o lado da janela.
“você sabe por quê estamos aqui não é?”
“sei sim, sempre soube, desde o início.”
Pararam o carro, era um fim de tarde, o céu avermelhado fazia a pele dos rostos ficar morna, mas o vento, entrando pelas janelas e balançando os cabelos, causava arrepios. Ela, uma moça que aparentava ter uns 28 anos, com os cabelos ondulados e vermelhos, colocou a cabeça pra fora e chamou a moça que estava na estrada.
“Entra aí garota, estamos indo pro mesmo lugar que você”
Uma jovem, usando um vestido florido verde limão entrou e sentou no banco de trás. Cumprimentou os dois. O motorista, um homem de 30 anos, com a barba por fazer e usando uma jaqueta de couro azul escuro olhou para trás.
O olho verde da menina fitou o castanho do motorista, ela amedrontada abriu a boca. Mas o homem foi mais rápido.
“Já sei pra onde você quer ir, logo logo você chega docinho.”
A mulher ao lado o olhou com desaprovação, ele sorriu e pegou um cigarro. Acendeu no cigarro dela. Ligou o carro e seguiu a reta infinita.
“Sabe, nunca imaginei encontrar alguém tão nova por aqui...”
“Moço, pode parar aqui, eu posso ficar...”
“Menina, fique quieta, estamos conhecendo você. Não sabe que quando se pega uma carona você deve comunicar com as pessoas. Conversa com a gente que nada vai acontecer. Eu prometo, me chamo Bu.”
“E eu sou o Doc.”
“Mel”
“Ok Mel, sabe pra onde você vai?”
“É simples não é? É só pegar a reta que eu chego em algum lugar não é? Como vocês sabem pra onde vão?”
“Nós não vamos pra lugar nenhum docinho”
Bu olhou para ele intrigada, balançou a cabeça e olhou para frente. Suspirou. O sol desaparecia, a estrada continuava na mesma reta, e Mel começou a chorar. Repetiu frases sem sentido como “meu deus, por quê isso?” “não pode ser...” “tão nova...”. Doc jogou o cigarro pela janela, olhou para Bu, e encostou o carro.
“Desce menina, seu lugar chegou.”
Bu não entendeu, tentou sair do carro para finalmente esticar as pernas, mas Mel já estava de fora, já tinha pulado do chevette e corria pelo campo verde que estava a sua frente. A porta não abriu, e o carro já estava em movimento. Ela berrou, olhou assustada para o lado e Doc estava rindo.
“Você nunca vai entender não é, Boneca”
“Por quê....?” Seus olhos lacrimejavam, sentia um vento forte, o carro estava em velocidade, as narinas ardiam e os cabelos esvoaçavam. “A gente sempre vai levar os mortos pro paraíso? Quando vamos sair desse lugar?”
“Nem sempre pro paraíso.”
“Eu quero sair Doc, eu quero voltar a andar, eu quero sentir o chão, eu quero correr como aquela garota, por que nós estamos aqui?”
“É muito simples Boneca, nosso inferno é aqui.”
Ela abaixou a cabeça. Reparou nos sapatos e nas pernas, a poltrona era confortável. Suspirou, olhou para frente e para o céu, já escuro.
“Não é muito diferente do que antes né?”