terça-feira, 20 de novembro de 2012

Roceiro, o Samuel.



Samuel estava sentado lá naquele monte de folha molhada, as mãos na boca e fazendo careta para o vira-lata a sua frente. Estava eu em um sítio com minha mãe, minha vó, minha tia e meu irmão. O local era uma antiga fazenda, que há muito tempo era um grande comércio da região. Hoje ela tem o seu valor histórico, uma balada no porão de um casarão, uma casa reformando do tamanho de um hotel, um cemitério de cavalos, uma roda enorme de engenho e uma família morando ali.
Essa família é a de Samuel, o garoto de três (ou quatro?) anos que corre descalço nas pedras e cai, aí ele levanta e continua a correr. A primeira vista pensei que ele iria ficar calado olhando para todos nós com vergonha. Sabe aquele clichê de menino da roça? Samuel cabe a eles, menos a parte da timidez. Tem os pés vermelhos de poeira, a unha suja de terra, as bochechas vermelhas, o sorriso inocente e a calça arrastada no chão.
Conversando com o pequeno, descubro que é mais que um menino, é corajoso, adora cavalo, enfrenta os bois e já tem cicatrizes. Nos braços marcas de queimadura, segundo a mãe, ele foi pegar o leite quente e entornou no corpo. Possui uma cicatriz que vai do peito esquerdo até  a barriga, resultado de um tombo em cima do arame farpado. Tudo isso com apenas poucos anos de idade e uma vontade imensa de não ficar parado.
O espoleta o tempo todo corria entre a gente, falava da sua maneira e tentava explicar o que queria dizer. Perguntamos se ele queria ir para a cidade conosco, com uma balançada de cabeça foi definitivo e entendi que ali é o lugar dele.
Samuel vive feliz ali, sem medo dos cavalos, das galinhas, dos gatos, do rottweiler preso na corrente e de qualquer pessoa. Queria que muitas pessoas que eu conheço fossem assim, felizes de natureza, felizes por estarem em seus devidos lugares. Samuel ainda não se perguntou se é feliz ou se questionou sobre quem ele é.
O dia em que ele fizer isto, deixará de ser feliz, na certa.